Petróleo passa de US$ 117 com a guerra no Oriente Médio e pressiona o diesel no Brasil
Ataques de rebeldes houthis a alvos sauditas levaram o Brent ao maior nível em seis meses. No Brasil, o governo discute manter o subsídio ao diesel em 2027 para conter a inflação.
Por Mariângela Santos · 27 de outubro de 2026

O preço do petróleo tipo Brent, referência internacional, fechou a sexta-feira (23) em US$ 116,93 o barril, com alta de 3,32%, depois de bater US$ 117,42 durante o pregão. Foi o maior valor desde 30 de abril. O WTI, referência nos Estados Unidos, fechou a US$ 103,44, alta de 3,99%.
A disparada foi puxada pela intensificação dos ataques dos houthis, grupo do Iêmen aliado do Irã, contra refinarias e aeroportos da Arábia Saudita, e pela falta de avanço nas negociações de paz na guerra que envolve Estados Unidos, Israel e Irã, já no nono mês. No acumulado de 2026, o Brent sobe cerca de 80%.
"A trajetória aponta para uma escalada militar no Oriente Médio no curto prazo", avaliou Helima Croft, chefe de estratégia de commodities do RBC Capital Markets.
Recuo nesta semana
Na terça-feira (27), o barril recuou para US$ 113,88, queda de 1,8%, depois de a mídia estatal iraniana informar que Irã, Arábia Saudita, Turquia e Paquistão concordaram em seguir negociando. Mesmo assim, o preço segue perto da máxima do semestre. Os houthis disseram ter atingido com um míssil a refinaria de Ras Tanura, a maior da Arábia Saudita, informação que não foi confirmada de forma independente.
Segundo a agência Reuters, outubro foi o pior mês em ataques a navios comerciais no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo produzido no mundo. O banco UBS passou a prever o Brent perto de US$ 110 até o fim do ano.
Como isso pode impactar o Brasil
O petróleo caro encarece o diesel, que move caminhões, ônibus e máquinas agrícolas, e isso costuma chegar ao preço do frete e dos alimentos. Até agora, o efeito nas bombas tem sido amortecido por subvenções federais ao diesel e à gasolina, que custam cerca de R$ 9 bilhões por mês, segundo estimativa da XP.
O subsídio ao diesel, prorrogado em setembro até 25 de outubro, deve ser estendido por pelo menos mais 30 dias, segundo reportagem do Mix Vale. A decisão ainda não havia sido formalizada até a publicação desta notícia.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que a ajuda pode continuar em 2027 se o petróleo seguir alto e gerar arrecadação extra com royalties. Segundo ele, o objetivo é "evitar que a inflação estoure", e não congelar preços. "Eu não vou pedir mais espaço fiscal, não vou gastar mais", afirmou. Para valer em 2027, a medida depende de uma nova proposta ao Congresso, porque a regra que permite compensar a despesa com a receita do petróleo vale só para 2026.
Defasagem na Petrobras
Desde o início da guerra, o preço do diesel vendido pela Petrobras às distribuidoras quase não mudou. A Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) calcula uma defasagem de cerca de 100% em relação ao mercado internacional; o Goldman Sachs estima que, mesmo com os subsídios, o preço da estatal está 21% abaixo da paridade. Os números usam métodos diferentes, mas ambos indicam risco de reajuste.
Até a publicação desta reportagem, a Petrobras não havia anunciado reajuste. A presidente da empresa, Magda Chambriard, disse não imaginar que o barril chegaria perto de US$ 116 no fim de outubro.
Brasil exporta mais
A alta também tem um lado positivo para as contas externas. De janeiro a setembro, o Brasil teve superávit recorde de US$ 31,22 bilhões no comércio de petróleo e derivados, 40% a mais que em 2025, e ultrapassou a Arábia Saudita como segundo maior fornecedor de petróleo bruto para a China.
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